sábado, 19 de abril de 2008

Cenas da vida


Um comentário:

Monica Horta disse...

Luca, meu neto querido

Sua mãe anda me cobrando um texto com a leitura do seu mapa astral. Não sabe o que é isso? Simples, uma interpretação do desenho que os planetas formavam no céu no momento exato que você escolheu para nascer...

Simples??? Ela que pensa... é verdade que eu faço isso quase todo dia, afinal sou astróloga por profissão... mas netos não chegam a toda hora e uma interpretação como essa precisa ser feita com tanto cuidado, que pode levar muito tempo para ficar pronta. Você sabe que até hoje eu não escrevi esta interpretação dos mapas do Gabriel e da Maria? Pois é, agora vou ter que escrever os mapas do três, senão o ciúme vai rolar solto. Você ainda não sabe, mas o ciúme é a roda que move o mundo e na nossa família chega a ser um problema...

Mas a astrologia me ensinou que nada acontece por acaso e enquanto o seu mapa não vem, vou mandar, e postar no seu blog, uma história que escrevi a um tempo atrás quando pensei em fazer uma coleção de astrologia para crianças. O primeiro, e único que ficou pronto, era dedicado aos arianos, porque este é o primeiro signo do zodíaco. Assim, atendo você primeiro, e, ao mesmo tempo, ganho tempo para escrever sobre todos, porque não quero ver meus netos brigando por causa de ciúme...

Aí vai.....


Era uma vez um carneirinho...


Ai que delícia nascer na primavera!!!!!

Primavera??????

Todos os carneiros daquele rebanho arrebitaram as orelhas com um ar de preocupação:

Será que além de faminto, chorão e agitado ( ninguém tinha conseguido dormir direito deste a noite em que ele tinha nascido) aquele carneirinho também era meio maluquinho???

_ Nós estamos no outono, Jasão... ( a mãe tinha lhe dado este nome em homenagem ao herói de uma antiga história grega que falava de um grupo de aventureiros que ia atrás de um carneiro de pêlo de ouro) a primavera só começa em setembro e nós ainda estamos no começo de abril ...
-Bobagem! respondeu Jasão com um jeito brabo que surpreendeu a todos. A primavera não é a estação das flores ?? Não é o tempo certo para se começar a plantar ??? Pois olhem em volta!! Vejam as quaresmas e os ipês cobertos de flores. Vejam a agitação do povo da fazenda! Acabou o tempo das águas e a terra está macia e prontinha para receber as sementes. Todo mundo está mais animado e cheio de energia para começar a fazer alguma coisa. Ontem mesmo ouvi aquele fazendeiro sessentão cantar uma música assim:
-Vêm vamos embora que esperar não é saber... quem sabe faz a hora não espera acontecer... Adorei!!!!
E Jasão saiu numa corrida desbalada para disfarçar o vermelho que tinha aparecido no seu focinho quando percebeu que tinha falado sem pensar e que podia ser que estivesse mesmo errado. Afinal ele tinha nascido há muito pouco tempo e não tinha como saber que do outro lado do mundo era mesmo primavera e tinham sido os homens que moram lá que deram os nomes para as estações do ano. Mas ele preferia morrer a dar a patinha à torcer...
Bastou correr um pouco para se sentir melhor. Em três minutos já tinha esquecido o problema das estações e estava pronto para encontrar um parceiro para a sua brincadeira favorita: dar marradas.
Você sabe o que é dar marradas? É uma brincadeira que só serve para carneiros, que tem uma cabeça muito mais dura do que a nossa. Um fica de frente para o outro, toma distância e corre para dar uma cabeçada bem forte.
A sorte de Jasão era que todos os outros carneiros também gostavam disso. Ele sempre se sentia bem quando tinha espaço e oportunidade de correr, pular, gastar energia!
As coisas só se complicavam quando a D. Carneira ( mãe dele) cismava que ele tinha que ficar quietinho ou então - o que era o pior de tudo - que ele tinha que esperar por alguma coisa. Isto ele não podia mesmo suportar. Desta vez eram o focinho e as orelhas que ficavam vermelhas e ele era capaz de aprontar tanta confusão ou fazer tanto barulho que a mãe acaba tratando de correr para fazer a sua vontade.
E aí ele se acalmava de novo e se derretia todo. Jasão adorava a mãe e tinha um coração generoso e sensível...
--Só não pode contrariar .... dizia D. Carneira
Nem mesmo para as aulas de música aquele carneirinho tinha paciência. Ele adorava a música e sabia que ela lhe fazia um bem enorme. Difícil de descrever. Mas não conseguir mesmo ficar repetindo os mesmos exercícios ou manter por muito tempo o corpo quieto. O que ele gostava mesmo era das aulas de capoeira. Meio jogo, meio luta, todo mundo em roda, o ritmo do berimbau... Aí ele ria muito e era gentil com os amigos.
Mas a generosidade de Jasão aparecia inteira quando alguém precisava dele. O carneirinho adorava se sentir útil e ouvir elogios por fazer as coisas com perfeição. Mas, de vez em quando, bem no meio de um desses momentos de fazer coisas bonitas ou ajudar os outros, o focinho de Jasão ficava vermelho de novo.
Quem faz alguma coisa em algum momento erra, e ele detestava errar. O pior é que não tinha muita paciência para aprender com os carneiros mais experientes. Dava uma olhada e já queria sair fazendo.
Pronto! bastava alguma coisa não sair tão perfeita como ele esperava para ele ficar num mau humor terrível e decidir que não queria mais saber daquilo. Mudava de rumo e tratava de fazer outra coisa.
Era por isso que, às vezes, D. Carneira se preocupava com o futuro do filho. - Com esse gênio complicado vai ser difícil ele aprender um ofício e conseguir uma profissão. Ela sabia que, no fundo, ele era muito ambicioso, e queria muito ser respeitado e aplaudido pelo rebanho.
Um dia, vendo o filho brincar, ela descobriu a maneira certa de fazer Jasão aprender as coisas que ela achava importante que ele aprendesse: tudo tinha que ter um jeito de jogo ou de brincadeira.
De todos os carneirinhos do rebanho, ninguém brincava ou jogava melhor do Jasão. Seus olhinhos brilhavam e ele suportava, se fosse esta a regra do jogo, até mesmo esperar ou ser contrariado.
No meio do grupo, quando todo mundo estava jogando a mesma coisa, Jasão ficava mais bem humorado, menos briguento e muito mais feliz. Como era muito esperto e tinha muita energia, na mesma hora chamava atenção e uma porção de outros carneirinhos começavam a imitar o que ele fazia e a seguir aquilo que ele mandava. Num instantinho o brigão se transformava em líder e o carneirinho metido virava um herói.
Para ser o melhor em algum esporte ou para descobrir uma maneira nova - e só dele - de criar alguma coisa bonita, era capaz de ficar muito tempo quieto, e até mesmo de ler muitos livros.
D. Carneira tinha descoberto uma coisa importante. Para os carneiros, que permanecem sempre um pouco crianças, o jogo é como uma chave que abre a porta para muitas outras atividades e ajuda a descobrir o que eles podem e o que eles são.
É verdade que Jasão continuava detestando errar ou - o que ainda era muito pior - perder. Mas quando isto acontecia, ele corria para casa e ia chorar no colo da mãe. Porque colo de mãe é coisa indispensável na vida de um campeão...

Um beijo grande, meu querido e aguarde os próximos capítulos...

Vovó